Uma das histórias mais intrigantes e, curiosamente, desconhecidas do judiciário brasileiro é o da Fera da Macabu, ou melhor, do fazendeiro fluminense Manoel da Motta Coqueiro (1799-1855). Foi uma noite chuvosa de 1852 que a história de Coqueiro mudou para sempre.

Francisco Benedito e toda sua família foram mortos a golpe de facões por um grupo de cerca de oito negros, escapando somente Francisca, a filha grávida que, aliás, tinha um caso extraconjugal com Motta Coqueiro. A casa foi incendiada, mas a chuva não permitiu que os corpos fossem queimados totalmente. Além de Francisco Benedito, foram assassinados a sua esposa, três filhos adolescentes e três crianças, uma delas com três anos de idade. A chacina, que aconteceu em uma das fazendas do Coqueiro, chocou todos na época.

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Reprodução do que seria o enforcamento de Manoel da Motta Coqueiro (Reprodução/Internet)

A partir daí começou o calvário de Manuel Motta Coqueiro. Todas as suspeitas caíram sob o fazendeiro. Os inimigos levaram uma caixa com todas as peças de roupas dos mortos, rasgadas e ensanguentadas. Com medo do que poderia acontecer, Coqueiro, após uma conversa com sua esposa Úrsula, decidiu fugir, mesmo contra a opinião desta e de seu filho, que o avisaram que pareceria estar assumindo o crime. Após forte apelo dos jornais – que cumpriram papel fundamental no pré-julgamento de Coqueiro – e ampla divulgação do caso, foi preso na Vila do Itapemirim.

Mesmo alegando inocência durantes anos – alguns historiadores acreditam que o crime foi encomendado pela esposa que descobriu a traição –
Coqueiro não escapou e foi condenado ao enforcamento. Em 1997, o jornalista e escritor Carlos Marchi – que é de Macaé, cidade onde a tragédia aconteceu – contou com detalhes essa trama. Com uma escrita saborosa e que prende o leitor, Marchi revela que provavelmente Coqueiro foi condenado por uma artimanha de seus inimigos políticos.

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Este seria o desenho de como a fera de Macabu ficou no fim da vida (Reprodução/Internet)

Na véspera do enforcamento recebe em sua cela um padre, a quem confessa sua inocência e revela o nome do verdadeiro mandante do crime de Macabu, que ele conhecia, mas prometera nunca revelar de público. No patíbulo, Coqueiro jurou inocência e rogou uma maldição sobre a cidade que o enforcava: viveria cem anos de atraso. A maldição acabou se cumprindo com rigorosa precisão e Macaé só voltou a prosperar com a descoberta de petróleo em meados do século 20.

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O jornalista Carlos Marchi fez um relato do que teria acontecido à “Fera” (Ana Clara Brant/Divulgação)

Pouco tempo depois do enforcamento descobriu-se que o fazendeiro tinha sido a inocente vítima de um terrível erro judiciário. O único crime de Coqueiro fora roubar a mulher de um primo influente e contrariar alguns interesses. Após a acusação, virou alvo de tremenda conspiração política, da qual participaram polícia, justiça, igreja, governo e quem mais pôde se aproveitar da situação. A imprensa estava nesse meio. Abalado, o imperador Pedro II, decide que dali em diante ninguém mais seria enforcado no Brasil.

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Filme Sem controle, com Eduardo Moscovis, é inspirado na tragédia (Reprodução/Youtube)

A trágica trajetória de Manoel da Motta Coqueiro já foi retratada em filmes, documentários, especiais como o longa Sem controle, estrelado por Eduardo Moscovis e na novela Escrava Isaura. O extinto programa Linha direta também fez um especial lebrando o famoso crime.